Blogue

29 de Abril de 2024

Quando as vítimas têm dificuldade em gerir emoções

Viver um evento potencialmente traumático, como a violência sexual, pode perturbar a perceção de segurança da vítima e fazer com que esta se mantenha num estado constante de alerta. Enquanto estratégia de sobrevivência, o cérebro humano desenvolve mecanismos automáticos e inconscientes, que permitem ao sobrevivente uma desconexão da realidade e de si próprio. Embora adaptativo, a longo prazo estes mecanismos podem tornar-se um obstáculo à capacidade do sobrevivente regular e gerir as suas emoções.

O facto de o sobrevivente estar num constante estado de ativação, no qual se sente ansioso e alerta a potenciais perigos, faz com que este percecione o mundo e os outros como ameaçadores, mesmo quando não o são. Devido a este estado persistente de tensão, o sobrevivente pode sentir dificuldades em relaxar, se sentir tranquilo e em se ligar aos outros.

Numa tentativa de se regular e aumentar a sensação de controlo e segurança, pode desenvolver mecanismos de proteção automáticos e inconscientes, que permitem ao homem sobrevivente de violência sexual uma desconexão da realidade e, assim, uma diminuição do sofrimento. Um desses mecanismos é a dissociação, em que a pessoa se sente desligada da realidade, provocando uma ruptura entre a mente e o corpo. A dissociação pode apresentar-se de várias formas e intensidades, e é comum a pessoa sentir-se entorpecida, alheada da realidade e perder a noção do tempo. Outro mecanismo de proteção do nosso cérebro é a despersonalização, em que a pessoa tem uma perceção distorcida de si própria, se sente distante do seu próprio corpo, como se este não lhe pertencesse e tem a sensação de ser um observador externo da sua vida. Alguns sobreviventes experienciam ainda outro mecanismo, denominado desrealização, no qual o mundo não é sentido como real e a pessoa se sente desconectada do ambiente que a rodeia.

Estes mecanismos de proteção são automáticos e não são uma escolha. Por esta razão podem ser difíceis de identificar pelo próprio sobrevivente, que pode apenas sentir-se estranho sem conseguir explicar exatamente o que está a acontecer. Embora permitam ao sobrevivente distanciar-se e minimizar o sofrimento gerado pelo abuso, a longo prazo estes mecanismos interferem com a consciência corporal. Ou seja, a capacidade de sentir o que se passa com o próprio corpo. Alguns sobreviventes podem sentir dificuldades em identificar dores físicas, tensão corporal, sensações como sede, fome ou calor, e podem, em alguns casos, não sentir determinadas partes do corpo. Quando isto acontece, torna-se difícil para o homem sobrevivente de abuso sexual conseguir identificar as suas emoções, uma vez que, as sensações corporais, que acompanham a emoção, não são reconhecidas. Por exemplo, quando uma pessoa está ansiosa os batimentos cardíacos e a respiração aceleram e os músculos ficam mais tensos, o que ajuda a compreender que algo está a acontecer e a gerir essa emoção. Se não consegui identificar estas alterações corporais, torna-se mais complicado saber como uma pessoa se sente e o que pode fazer para se sentir melhor. Por este motivo, sobreviventes de violência sexual partilham muitas vezes dificuldades em se autorregular.

No acompanhamento psicológico focado no trauma, o sobrevivente pode compreender o impacto do abuso sexual na sua vida e gerir as emoções associadas ao mesmo. Do mesmo modo, entender estes mecanismos de proteção automáticos e, de que forma, estão presentes na sua vida, ajudará o sobrevivente a lidar com eles.

Ao longo do processo na Quebrar o Silêncio, o sobrevivente tem a oportunidade de se reconectar com o seu corpo e de reaprender que é seguro sentir. Paralelamente, são trabalhadas estratégias de autorregulação que ajudam o sobrevivente a manter-se mais estável, a ter controlo sobre as suas emoções, pensamentos e comportamentos. Progressivamente, a necessidade destes mecanismos automáticos surgirem vai diminuindo, uma vez que, o sobrevivente se sente mais conectado, estável e regulado.

Se se identifica com este texto e sente dificuldades em gerir as suas emoções, procure apoio. Contacte-nos através da Linha de Apoio 910 846 589 ou do email apoio@quebrarosilencio.pt.