Blogue

1 de Abril de 2024

Violência sexual contra homens: comportamentos de evitamento enquanto estratégia de sobrevivência

Para muitos homens vítimas de violência sexual uma das formas de lidar com as consequências do abuso é recorrer a comportamentos de evitamento. Estes comportamentos são uma estratégia de sobrevivência e uma resposta ao sofrimento. Porém, não permitem ao sobrevivente integrar e lidar de forma saudável com que aconteceu e podem maximizar o impacto da violência sexual nas suas vidas.

Exemplos de estratégias de evitamento

Para alguns sobreviventes significa evitar contextos ou situações sociais. Evitar o contacto com outras pessoas, é uma estratégia que dá a ilusão de manterem o perigo longe (seja ele real ou não), e assim ter uma sensação de controlo das suas vidas. Também os comportamentos de automutilação podem surgir enquanto escape. Assim, o sobrevivente procura substituir a dor psicológica pela dor física para desviar a sua atenção e o foco dos pensamentos relacionados com o abuso. Outra estratégia de fuga que, por vezes, é utilizada é dormir em excesso durante longos períodos ou em horários nos quais não seria expectável que tal aconteça. Numa tentativa de fugir a pensamentos, sentimentos e memórias do abuso, há sobreviventes que podem recorrer ao consumo de substâncias como álcool e substâncias psicoativas, tal como, à automedicação sem adequada orientação ou recomendação médica. Noutros casos, o recurso excessivo à masturbação e pornografia, e a prática de comportamentos sexuais de risco (ler sobre hiperssexualização), podem fazer o sobrevivente sentir que por momentos consegue escapar ao sofrimento gerado pelo abuso sexual.

Quando o evitamento não é visto como tal

Os comportamentos de evitamento estão habitualmente associados a comportamentos disruptivos ou desviantes, porém, não tem que ser necessariamente desta forma. Alguns comportamentos são na verdade validados e reforçados socialmente, e não são percepcionados como comportamentos que podem ser prejudiciais ao bem-estar do sobrevivente. Por exemplo, um sobrevivente que trabalha em excesso, é o primeiro a chegar e o último a sair e está sempre disponível para realizar qualquer tarefa e/ou nunca tira férias, pode na realidade estar a utilizar o trabalho como um distrator. Muitos sobreviventes indicam que «Enquanto trabalho a minha mente não é assaltada por pensamentos e memórias do abuso. O problema é quando não estou ocupado». Não só este o mantém distraído, como também, o leva eventualmente a um estado de exaustão que pode ajudar a adormecer mais rapidamente. Outro exemplo semelhante é o exercício físico excessivo; tal como o trabalho, promove uma distração e simultaneamente esgota toda a energia.

O sobrevivente também pode evitar estar sozinho para impedir que pensamentos disruptivos invadam a sua mente. Assim, há casos de sobreviventes que têm uma vida social extremamente ativa, repleta de planos e compromissos. Esta estratégia pode também ser um modo eficiente de evitar ter tempo ou espaço para que surjam pensamentos ou memórias intrusivas.

 

Com o apoio psicológico especializado o sobrevivente pode identificar se existem comportamentos de evitamento e qual o impacto que estão a ter na sua vida. Posteriormente, pode procurar substituir estes comportamentos por estratégias funcionais e saudáveis que o ajudem a lidar com as suas emoções e com as repercussões do abuso sexual. Isto permitirá ao sobrevivente sentir que não tem que continuar a fugir e que é possível viver o presente de forma mais serena e plena.

Se acredita que estes comportamentos estão presentes na sua vida e se identifica com este texto, contacte-nos através da Linha de Apoio 910 846 589 ou do email apoio@quebrarosilencio.pt, estamos disponíveis para o receber.