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	<title>Sexualidade &#8211; Quebrar o Silêncio</title>
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	<description>Apoio para homens e rapazes vítimas de violência sexual</description>
	<lastBuildDate>Mon, 15 Jun 2026 08:21:00 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Sexualidade &#8211; Quebrar o Silêncio</title>
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		<title>Fiz certas coisas que me envergonho, serei bem recebido na mesma?</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/fiz-certas-coisas-que-me-envergonho-serei-bem-recebido-na-mesma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 06:38:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Abuso sexual de homens]]></category>
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					<description><![CDATA[À Quebrar o Silêncio chegam muitos homens e todos eles muito diferentes entre si; unidos pelo trauma que viveram. Todos, sem exceção, carregam dúvidas e questões sobre o que lhes aconteceu, mas também sobre como julgam que poderiam ter agido ou comportado após o abuso. Como consequência desse questionamento e hesitação, vários receiam procurar apoio [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">À Quebrar o Silêncio chegam muitos homens e todos eles muito diferentes entre si; unidos pelo trauma que viveram.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos, sem exceção, carregam dúvidas e questões sobre o que lhes aconteceu, mas também sobre como julgam que poderiam ter agido ou comportado após o abuso. Como consequência desse questionamento e hesitação, vários receiam procurar apoio porque acreditam que serão julgados, rejeitados ou vistos como “más pessoas”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vamos esclarecer algo que para nós, na Quebrar o Silêncio, é regra: recebemos todos os homens sem julgamentos nem juízos de valor. O nosso apoio é um espaço seguro para qualquer partilha. E quando dizemos isto, dizemo-lo muito a sério. O nosso trabalho parte de um princípio simples: compreender sem julgar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Qualquer homem pode procurar apoio sem medo de ser humilhado, ridicularizado ou tratado com juízos de valor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos os dias acompanhamos homens que:</span></p>
<ul>
<li><span style="font-weight: 400;">evitam qualquer intimidade, outros que procuram sexo de forma compulsiva, tendo múltiplos parceiros sexuais;</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">recorrem à prostituição ou exerceram trabalho sexual;</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">consomem pornografia ocasionalmente, outros cujo consumo se tornou diruptivo, afeta as outras áreas das suas vidas, nomeadamente pessoal e profissional;</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">utilizam álcool, drogas ou outras estratégias para tentar silenciar sofrimento emocional e outros que são abstémios;</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">vivem com pensamentos suicidas ou passaram por tentativas de suicídio, outros que nunca tiveram esse tipo de pensamentos;</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">sentem confusão relativamente à sua sexualidade, ao que lhes dá prazer, aos seus limites ou ao próprio corpo;</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">são heterossexuais e têm relações sexuais com homens e homens homossexuais que têm relações sexuais com mulheres;</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">evitam relações próximas, casamento ou parentalidade devido ao medo da vulnerabilidade emocional.</span></li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h4><strong>Nenhuma história é perfeita, não há vítimas perfeitas e muito menos há um guião que as vítimas tenham de cumprir para terem o apoio que merecem.</strong></h4>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O trauma pode manifestar-se de formas muito diferentes. Sobreviver não é uma história bonita, linear ou socialmente compreensível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso não significa que tudo o que fazemos em sofrimento seja saudável ou nos faça bem. Mas significa que ninguém deve ser reduzido aos seus momentos mais difíceis e às estratégias que teve que desenvolver para sobreviver.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se vive com culpa, confusão, vergonha ou medo de ser julgado, saiba que não precisa de enfrentar isso sozinho. Independentemente do que fez no passado, da forma como agiu depois do abuso, do que fez para sobreviver ou do que hoje ainda faz; nada disso deve ser um travão ou obstáculo para ter ajuda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contacte-nos.</span></p>
<p>910 846 589<br />
apoio@quebrarosilencio.pt</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quando a violência sexual destrói o amor-próprio</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/quando-a-violencia-sexual-destroi-o-amor-proprio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2026 08:48:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Masculinidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Trauma]]></category>
		<category><![CDATA[Violação de homens]]></category>
		<category><![CDATA[Violência sexual contra homens]]></category>
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					<description><![CDATA[A violência sexual tem um impacto profundo e duradouro na vida dos homens e rapazes, atingindo frequentemente uma dimensão que nem sempre é visível: a forma como passam a olhar para si próprios. Muitos sobreviventes descrevem uma sensação persistente de terem perdido algo fundamental. Não apenas a segurança ou a confiança nos outros, mas a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">A violência sexual tem um impacto profundo e duradouro na vida dos homens e rapazes, atingindo frequentemente uma dimensão que nem sempre é visível: a forma como passam a olhar para si próprios. Muitos sobreviventes descrevem uma sensação persistente de terem perdido algo fundamental. Não apenas a segurança ou a confiança nos outros, mas a própria forma como se percebem enquanto pessoas e enquanto homens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em casos de abuso sexual a autoestima pode ser profundamente afetada. Ideias como “há algo de errado comigo”, “sou fraco”, “sou sujo” ou “não mereço coisas boas” passam a ocupar espaço no pensamento diário. Estas crenças não surgem do nada: são frequentemente alimentadas pelo estigma social, pelos mitos sobre masculinidade e pelo silêncio que ainda envolve a violência sexual contra homens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para muitos sobreviventes, aceitar um elogio torna-se difícil, quase impossível; por sua vez, as críticas negativas parecem ficar cravadas no corpo. Sentir orgulho em si próprios pode parecer impossível. A perceção de valor pessoal fica comprometida e, com o tempo, essa visão negativa pode tornar-se uma lente através da qual passam a interpretar a própria vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A violência sexual também pode afetar profundamente a forma como os homens se veem enquanto homens. Vivemos em sociedades que continuam a associar masculinidade à força, ao controlo, à invulnerabilidade e à capacidade de se defender. Quando um homem é vítima de violência sexual, estas ideias podem transformar-se em acusações internas devastadoras: “Se eu fosse um homem a sério, isto não teria acontecido.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta narrativa é injusta e errada, mas tem consequências reais. Muitos sobreviventes podem passar anos a questionar a própria masculinidade, a sua identidade e o seu lugar no mundo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com o tempo, estas perceções podem influenciar decisões importantes da vida. Há homens que evitam relações íntimas por medo, vergonha ou desconfiança. Outros sentem dificuldade em comunicar os seus limites, em confiar nas pessoas ou em reconhecer que merecem cuidado e respeito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação com o próprio corpo também pode mudar. Alguns sobreviventes relatam sentir-se desligados de si mesmos, como se habitassem um corpo que deixou de lhes pertencer plenamente. Outros desenvolvem sentimentos de repulsa, culpa ou estranheza em relação ao próprio corpo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estas experiências podem ainda influenciar o percurso profissional, as relações familiares, a vida afetiva e sexual e até a forma como a pessoa imagina o seu futuro. Quando a autoestima é destruída, o horizonte pode parecer mais curto. O sobrevivente pode acreditar que não merece felicidade, estabilidade ou amor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com apoio da Quebrar o Silêncios, os homens desenvolvem ferramentas para reconstruir a forma como se veem a si próprios. A recuperação do trauma não significa apagar o que aconteceu, mas aprender a olhar para si com mais compaixão, dignidade e verdade.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Intimidade enquanto arma: violência sexual e manipulação emocional no digital</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/intimidade-enquanto-arma-violencia-sexual-e-manipulacao-emocional-no-digital/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Feb 2026 13:03:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[intimidade]]></category>
		<category><![CDATA[Masculinidades]]></category>
		<category><![CDATA[sextortion]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Violação de homens]]></category>
		<category><![CDATA[Violência sexual contra homens]]></category>
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					<description><![CDATA[Com a época do Dia de São Valentim, aumenta a procura por ligação, intimidade e reconhecimento, sobretudo em contextos digitais. Aplicações de encontros, redes sociais e plataformas de mensagens tornam-se espaços privilegiados de contacto. Para muitas pessoas, estes ambientes representam oportunidades legítimas de conhecer alguém. Para outras, tornam-se o ponto de entrada para experiências profundamente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Com a época do Dia de São Valentim, aumenta a procura por ligação, intimidade e reconhecimento, sobretudo em contextos digitais. Aplicações de encontros, redes sociais e plataformas de mensagens tornam-se espaços privilegiados de contacto. Para muitas pessoas, estes ambientes representam oportunidades legítimas de conhecer alguém. Para outras, tornam-se o ponto de entrada para experiências profundamente violentas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos últimos anos, a Quebrar o Silêncio tem acompanhado um crescimento significativo de casos de violência sexual em contextos digitais, em particular através de extorsão sexual. Só em 2025, registou-se um aumento de 5000% em relação a 2024</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estes casos raramente começam com uma ameaça explícita. Começam, quase sempre, com uma conversa aparentemente banal, uma troca de atenção, uma promessa implícita de proximidade.</span></p>
<h4><b>A manipulação emocional é o primeiro passo.</b></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Os mecanismos são conhecidos: criação de uma falsa relação, validação constante, ritmo acelerado de intimidade, pedidos para mudar a conversa para plataformas mais privadas. O objetivo não é o encontro, nem a relação, mas sim a construção de confiança suficiente para explorar vulnerabilidades emocionais. Quando essa confiança é criada, surgem os pedidos de imagens íntimas, chamadas de vídeo ou partilhas privadas. A partir daí, a relação transforma-se em controlo. A pressão e chantagem, que acontecem nos casos de extorsão sexual, instalam-se quando a confiança é dizimada pelo medo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitos homens relatam que, a partir do momento em que são confrontados com ameaças de divulgação de imagens, sentem que perdem qualquer margem de escolha e controlo. O medo da exposição, da humilhação pública, do impacto na vida profissional, familiar ou relacional torna-se esmagador. A vergonha silencia. O isolamento aprofunda-se. E a violência continua, muitas vezes através de pedidos sucessivos de dinheiro, novas imagens ou novas formas de submissão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Importa sublinhar: extorsão sexual é violência sexual. Não é um erro, não é ingenuidade, não é “ter confiado demais”. É abuso sustentado por manipulação emocional, coerção e ameaça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O impacto psicológico destas experiências pode ser profundo e drástico. Muitos homens apresentam sintomas compatíveis com trauma: ansiedade persistente, hipervigilância, dificuldade em dormir, pensamentos intrusivos, vergonha intensa e sentimentos de defeito. A confiança nos outros, e em si próprios, pode ser profundamente abalada. Em alguns casos, estas experiências reativam traumas anteriores, incluindo histórias de abuso sexual na infância ou na adolescência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há ainda um fator que agrava este sofrimento: o estigma. A ideia bafienta de que os homens devem ser fortes, racionais e imunes à manipulação emocional contribui para o silêncio. Muitos sobreviventes demoram anos a pedir ajuda. Alguns nunca o fazem. A violência é vivida em segredo, enquanto quem abusa continua impune.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fundamental compreender que estas práticas não são exceções nem fenómenos marginais. São estratégias metódicas de crime organizado, cada vez mais sofisticadas, que exploram necessidades humanas básicas: ligação, validação, intimidade. Quando estas necessidades se cruzam com momentos de solidão, fragilidade emocional ou desejo de pertença, o risco aumenta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Falar sobre violência sexual em contextos digitais não é gerar alarme, é nomear a realidade tal como ela é. É reconhecer que o abuso também acontece através de ecrãs, palavras e ameaças invisíveis, mas com consequências muito reais. Apenas a ameaça, sem conteúdos íntimos ou sexuais, pode provocar todo um estado de ansiedade extrema e até ideação suicida na vítima.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se estiver a passar por uma situação de extorsão sexual ou manipulação emocional, é importante saber que não está sozinho e que há apoio. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um passo de proteção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Quebrar o Silêncio, continuamos a acompanhar homens e rapazes sobreviventes destas formas de violência. Dar nome ao que acontece é parte essencial do caminho para quebrar o silêncio, e para devolver dignidade a quem foi vitimado.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dia de São Valentim: quando a celebração reabre feridas</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/dia-de-sao-valentim-quando-a-celebracao-reabre-feridas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Feb 2026 11:59:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Consentimento]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Iniciar ou manter uma relação amorosa pode ser um desafio particularmente exigente para os sobreviventes, ainda que, para as outras pessoas, essa dificuldade não seja percetível. Com a proximidade do Dia de São Valentim, é comum sermos bombardeados com publicidade a jantares românticos, escapadinhas a dois e presentes “perfeitos”. As redes sociais enchem-se de fotografias [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<h5>Iniciar ou manter uma relação amorosa pode ser um desafio particularmente exigente para os sobreviventes, ainda que, para as outras pessoas, essa dificuldade não seja percetível.</h5>
</blockquote>
<p>Com a proximidade do Dia de São Valentim, é comum sermos bombardeados com publicidade a jantares românticos, escapadinhas a dois e presentes “perfeitos”. As redes sociais enchem-se de fotografias de casais felizes, declarações públicas de amor e promessas de felicidade a dois. Para muitas pessoas, este dia é vivido como uma celebração. Para outros, para os homens sobreviventes de violência sexual, o Dia dos Namorados pode ser particularmente desconfortável e doloroso.</p>
<p>A violência sexual deixa marcas profundas na forma como uma pessoa se relaciona com o próprio corpo, com a intimidade e com os outros. Muitos sobreviventes enfrentam dificuldades em criar ou manter relações íntimas saudáveis e duradouras. O contacto físico, a proximidade emocional, a vulnerabilidade e a confiança — elementos frequentemente romantizados nesta data — podem estar associados a medo, confusão, culpa ou vergonha. Iniciar ou manter uma relação amorosa pode ser um desafio particularmente exigente para os sobreviventes, ainda que, para as outras pessoas, essa dificuldade não seja percetível.</p>
<p>Perante esta exibição constante de amor e felicidade, o sobrevivente pode sentir que está a falhar. Pode comparar-se com o que vê à sua volta e concluir, injustamente, que há algo de errado consigo por não conseguir manter uma relação ou por não sentir que não corresponde ao que “deveria” sentir. Não é raro surgirem pensamentos como: “Nunca vou ser capaz de amar”, “Ninguém me vai amar” ou “Nunca serei feliz numa relação”. Estes pensamentos podem ser profundamente desconcertantes e gerar sentimentos intensos de tristeza, solidão e desesperança em relação ao futuro.</p>
<p>A pressão social associada ao Dia de São Valentim agrava este sofrimento. A ideia de que é preciso estar numa relação para ser feliz, completo ou valorizado é repetida até à exaustão. Para um sobrevivente, esta narrativa pode reforçar a sensação de exclusão e inadequação, como se estivesse permanentemente fora do lugar, a assistir a uma felicidade que lhe parece inacessível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Há ainda outro aspeto frequentemente esquecido: o trauma não afeta apenas a relação com os outros, afeta também a relação consigo próprio. Muitos homens sobreviventes carregam uma visão distorcida do seu valor, da sua desejabilidade e da sua capacidade de estabelecer vínculos seguros. Datas como o Dia dos Namorados podem reativar feridas antigas, despertar memórias difíceis ou intensificar a autocrítica e o isolamento.</p>
<p>É importante lembrar que o amor não se resume a uma relação romântica, nem a felicidade depende de estar acompanhado. O discurso dominante em torno do Dia de São Valentim ignora a importância do amor-próprio, do autocuidado e das múltiplas formas de relação significativa — amizades, relações familiares, ligações comunitárias ou, simplesmente, a construção de uma relação mais segura consigo próprio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para homens sobreviventes de violência sexual, o caminho passa muitas vezes por reconstruir, passo a passo, a noção de intimidade, aprender a confiar novamente e permitir-se viver relações que respeitem o seu ritmo, os seus limites e a sua história. Não há prazos, modelos nem obrigações. Não estar numa relação não é um fracasso. Sentir dificuldade em amar não é uma falha pessoal: é, muitas vezes, uma resposta ao trauma.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Se o Dia de São Valentim lhe trouxer desconforto, tristeza ou isolamento, procurar apoio pode fazer a diferença. Falar com alguém que compreenda o impacto da violência sexual na vida emocional e relacional é um passo legítimo e importante. Na Quebrar o Silêncio, estamos aqui para apoiar hoje, neste dia, e em todos os outros.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Leia o testemunho de Rui de 45 anos</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/leia-o-testemunho-de-rui-de-45-anos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Oct 2025 10:44:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Abuso sexual de homens]]></category>
		<category><![CDATA[Masculinidades]]></category>
		<category><![CDATA[Pornografia]]></category>
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					<description><![CDATA[Cheguei à associação após ouvir o Ângelo num podcast, onde descrevia alguns dos sentimentos com os quais lidava desde há muito. Sentia que vivia uma espécie de vida dupla: perante família, amigos e sociedade apresentava-me com uma segurança e eloquência irrepreensíveis e até destacada; no silêncio do meu isolamento, reprimia-me por me sentir sempre fisicamente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Cheguei à associação após ouvir o Ângelo num podcast, onde descrevia alguns dos sentimentos com os quais lidava desde há muito.</p>
<p>Sentia que vivia uma espécie de vida dupla: perante família, amigos e sociedade apresentava-me com uma segurança e eloquência irrepreensíveis e até destacada; no silêncio do meu isolamento, reprimia-me por me sentir sempre fisicamente em desvantagem perante os outros homens.</p>
<p>Iniciei a minha vida sexual tardiamente pois, percebo agora, julgava que a minha performance e o meu falo seriam &#8220;avaliados&#8221; e o medo de &#8220;falhar&#8221; remetia-me para um afastamento dessas situações. A masturbação e o recurso à pornografia saciavam a minha pulsão sexual. Após iniciar a minha vida sexual &#8211; e mesmo após a concretização de um casamento &#8211; essa ideia de performance e de permanente comparação com outros continuou, ainda que de um modo mais ou menos inconsciente, associada à prática sexual.</p>
<p>A imagem física que tinha de mim próprio mantinha um padrão de permanente comparação com outros homens, sendo que a comparação era sempre com homens que eu considerava mais viris ou que se aproximavam do meu (pré)conceito do que é ser Masculino. Em suma, saía sempre a perder… e, para além disso, plantava a dúvida acerca de uma orientação sexual indefinida. Não era fácil abordar este tema com quem quer que fosse. Mesmo com a frequência de outras consultas de psicologia estas questões não melhoravam nem encontravam uma resposta.</p>
<p>Após o envio de um primeiro email, com alguma vergonha e mais dúvidas do que certezas, fui &#8220;acolhido&#8221; e iniciou-se o processo.</p>
<p>O processo de recuperação foi intenso e de grande dedicação, tendo a profissional envolvida sido fundamental para ajudar a desconstruir as perceções e sentimentos assimilados ao longo de toda a minha vida. A clarividência da dismorfia que me acompanhava, bem como a humanização das Figuras Masculinas que eram o &#8220;gatilho&#8221; para sentimentos e pensamentos comparativos foram, e são, fundamentais para iniciar uma reconstrução alicerçada em compreensão e (início de) aceitação próprias.</p>
<p>Hoje sinto-me mais capaz de lidar com a minha imagem física e mais preparado para ajudar os que me rodeiam a viverem mais atentos aos padrões que, de modo mais ou menos subliminar, a sociedade nos impõe. As situações de balneários e de exposição do corpo, com os quais me debatia, tornaram-se menos desafiantes e são melhor compreendidas por mim, como sendo consequência do ato continuado a que fui sujeito enquanto criança, abuso esse que nunca se configurou como violento, nem foi intencionalmente doloso, o que o tornou ainda mais difícil de definir como tal.</p>
<p>O grupo de apoio, em articulação com as sessões terapêuticas individuais, permitiu a existência de espaços seguros de partilha com outros homens que, à sua maneira, têm vidas e experiências que me permitem uma identificação e até perspetivar soluções que ajudaram e ajudam a manter-me neste percurso com vista a uma vida mais completa, física e intelectualmente.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Novo testemunho</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/novo-testemunho/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 11:27:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Incesto]]></category>
		<category><![CDATA[Quebrar o Silêncio]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Trauma]]></category>
		<category><![CDATA[Violação de homens]]></category>
		<category><![CDATA[Violência sexual contra crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Violência sexual contra homens]]></category>
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					<description><![CDATA[Partilhamos hoje, um novo testemunho. Carlos  procurou a ajuda da Quebrar o Silêncio, aos 36 anos, por ter sido violado em criança. Hoje diz-nos com orgulho «estou melhor do que nunca, e foi por toda a ajuda que recebi da Quebrar o Silêncio durante estes últimos meses.» &#160; Leiam as palavras de Carlos: Sou um [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Partilhamos hoje, um novo testemunho. Carlos  procurou a ajuda da Quebrar o Silêncio, aos 36 anos, por ter sido violado em criança. Hoje diz-nos com orgulho «estou melhor do que nunca, e foi por toda a ajuda que recebi da Quebrar o Silêncio durante estes últimos meses.»</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leiam as palavras de Carlos:</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sou um imigrante a morar em Portugal há 10 anos. Além das dificuldades de ser imigrante, comigo esteve sempre o peso de ter sofrido violência sexual por muitos anos quando era miúdo, e não saber quanto do que sofri realmente tinha superado ou estava só a aparentar e manter muitos dos traumas dentro de mim.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sofri violação por parte de um familiar até os 10 anos, e embora sempre soube que algo estava errado em tudo isso, nunca consegui dizer aos meus pais o que estava a acontecer. Ele usou sempre as suas palavras e &#8220;amizade&#8221; para fazer tudo o que queria comigo, como se estivesse bem, e isso bem fez que a minha personalidade ficasse afetada: tornei-me um miúdo muito tímido e não gostava de conhecer pessoas novas nem fazer muita conversa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sabia que o único mundo de segurança era o meu quarto e tentava não sair daí. Assim passei toda a minha adolescência até chegar à universidade, onde por fim perdi a timidez, e acreditei que os traumas que tinha sofrido pelas violações tinha ido embora. Por muitos anos achei que fui feliz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cheguei aos 30 anos, e comecei a ter problemas nas relações sexuais e tive disfunção erétil. Foi quando me apercebi de que tinha dentro de mim muitas coisas que nunca foram atendidas e soube que precisava de ajuda. Passaram muitos anos até chegar a encontrar os serviços da Quebrar o Silêncio. Foi só através de um amigo que me os recomendou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todo o processo de atendimento desde o começo foi maravilhoso. Desde o primeiro momento fizeram-me sentir confortável num processo que é de tudo menos confortável, e isso já vale para muito. Tivemos dias em que aprofundámos muito o que eu sofri quando era miúdo, mas outros dias também falamos em coisas que me acontecem que não tem de ver com as violações porque afinal também é saúde mental, e me fazia sentir muito mais seguro neste processo terapêutico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final eu consegui ver que tinha melhorado muito, especialmente como agora eu valido-me a mim próprio e sou consciente das coisas que preciso para cuidar de mim mesmo, e estar bem comigo. Sei como pôr limites e respeitar-me a mim próprio e fazer-me respeitar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Consegui tudo isto com a ajuda da Quebrar o Silêncio e não posso estar mais agradecido, foram a ajuda que sempre procurei e agora sinto-me como nunca me senti antes. Estou muito feliz de ter sido ajudado por vocês e estou seguro do meu próprio bem-estar. Muito obrigado!</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Pratica Chemsex? Tudo bem, vamos falar de segurança?</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/pratica-chemsex-tudo-bem-vamos-falar-de-seguranca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Sep 2025 10:43:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Chemsex]]></category>
		<category><![CDATA[Consentimento]]></category>
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					<description><![CDATA[Para algumas pessoas, o Chemsex pode ser vivido como uma experiência de libertação, um espaço onde a sexualidade pode atingir um grau de intensidade que, por várias razões, se encontra fora do seu alcance. Na Quebrar o Silêncio não julgamos práticas sexuais nem escolhas individuais, mas queremos trazer à conversa algo que raramente se fala: [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Para algumas pessoas, o Chemsex pode ser vivido como uma experiência de libertação, um espaço onde a sexualidade pode atingir um grau de intensidade que, por várias razões, se encontra fora do seu alcance. Na Quebrar o Silêncio não julgamos práticas sexuais nem escolhas individuais, mas queremos trazer à conversa algo que raramente se fala: </span><b>o risco de violência sexual nestes contextos</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando se fala em redução de riscos no Chemsex, pensa-se sobretudo no uso de substâncias — a qualidade da droga, a dosagem, a origem, o </span><i><span style="font-weight: 400;">drug checking</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mas </span><b>a redução de riscos também deve incluir o risco de abuso sexual</b><span style="font-weight: 400;">, que é real e está presente em vários dos relatos dos homens que chegam à Quebrar o Silêncio. A realidade é que a maioria destes homens não fala destas experiências.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Recebemos, com frequência, homens que foram abusados sexualmente durante festas de Chemsex. Muitos não conseguem reconhecer de imediato que o que viveram foi violência sexual. </span><b>Confundem o abuso com uma «má experiência sexual»</b><span style="font-weight: 400;">, algo que correu mal, que foi desconfortável, confusa, dolorosa, ou até traumática, mas que não se encaixa, à primeira vista, na imagem que têm do que é uma violação ou outros atos de abuso sexual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Parte desta dificuldade vem da </span><b>ideia errada de que o consentimento está garantido à partida</b><span style="font-weight: 400;"> por terem aceitado participar ou por terem sido os organizadores da festa, por terem adquirido as substâncias ou por terem dito «sim» no início. No entanto, </span><b>o consentimento (seja de quem convida ou de que é convidado) tem de ser dado de forma livre, informada e contínua; e o consumo de drogas compromete essa liberdade</b><span style="font-weight: 400;">. Se a pessoa está inconsciente, dissociada, excessivamente intoxicada, </span><b>não há consentimento possível</b><span style="font-weight: 400;">. E aqui entramos no domínio da violência sexual e do crime.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também existe o medo do julgamento. Muitos sobreviventes receiam ser culpabilizados por usarem drogas, por terem relações com múltiplas pessoas ou por se envolverem em práticas fora do «aceitável». Receiam os olhares de reprovação de profissionais de saúde, da polícia, da família ou até de pessoas amigas. E assim, o silêncio impõe-se. Um silêncio que protege os agressores e prolonga o sofrimento de quem foi vítima de abuso sexual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há ainda quem interiorize que </span><b>«faz parte da cultura»</b><span style="font-weight: 400;">, como se fosse inevitável que, mais cedo ou mais tarde, algo corra mal. Como se o abuso fosse o preço a pagar por viver uma sexualidade lida como «fora da norma» ou «libertina». Esta naturalização da violência é uma </span><b>forma perigosa de normalizar a violação em certos contextos</b><span style="font-weight: 400;"> e contribui para a ideia errada de auto culpabilidade da própria vítima, pelo que é urgente combatê-la.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Quebrar o Silêncio ajudamos homens e rapazes, bem como pessoas trans e não binárias, que tenham sido abusados sexualmente em contexto de Chemsex.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Quebrar o Silêncio encontram um espaço seguro para falar das experiências sem juízos de valor. Quem nos procura, encontra escuta e empatia. Independentemente das circunstâncias, do grau de envolvimento ou da forma como começou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A culpa nunca é da vítima.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A responsabilidade é sempre de quem abusa.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Sou heterossexual, mas sinto-me excitado por homens. Terá o abuso influenciado a minha orientação sexual?</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/sou-heterossexual-mas-sinto-me-excitado-por-homens-tera-o-abuso-influenciado-a-minha-orientacao-sexual/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jul 2025 10:08:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Orientação sexual]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Muitos dos homens que foram abusados sexualmente são assolados pela dúvida: terá o abuso influenciado a minha orientação sexual? Devido à natureza sexualizada do abuso, é natural que esta questão possa gerar confusão e mal-estar, nomeadamente nos sobreviventes heterossexuais. Quando homens sobreviventes de violência sexual, em particular com orientação heterossexual, relatam sentir excitação (ou a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Muitos dos homens que foram abusados sexualmente são assolados pela dúvida: terá o abuso influenciado a minha orientação sexual? Devido à natureza sexualizada do abuso, é natural que esta questão possa gerar confusão e mal-estar, nomeadamente nos sobreviventes heterossexuais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando homens sobreviventes de violência sexual, em particular com orientação heterossexual, relatam sentir excitação (ou a confundem com interesse) perante outros homens ou situações de teor homoerótico, isso não significa que a sua orientação sexual tenha mudado com o abuso ou que «no fundo tenham desejado» o que lhes aconteceu. É essencial desmontar essa questão.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><b>Excitação sexual não indica interesse ou consentimento</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiramente, convém esclarecer que excitação sexual não é, nem representa qualquer forma de consentimento. Não valida o abuso sofrido, não minimiza a dimensão traumática ou deixa de ser crime.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O corpo pode responder fisiologicamente ao estímulo sexual mesmo em situações de ameaça, medo ou abuso. É uma resposta fisiológica e involuntária, muitas vezes interpretada erroneamente como «desejo», «atração» ou como forma de consentimento. Muitos sobreviventes sentem culpa por terem tido ereção, ejaculação ou orgasmo durante o abuso — mas isso não significa que quisessem ou tenham gostado de terem sido abusados sexualmente.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><b>O trauma pode distorcer as referências sexuais</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos impactos mais complexos da violência sexual — especialmente quando vivida na infância ou adolescência — é como esta pode interferir na construção das referências sexuais e do desejo. O corpo pode ter registado sensações físicas associadas ao abuso, mesmo em contexto de medo, coação ou confusão. Como o cérebro, especialmente em idades precoces, ainda está em desenvolvimento, não consegue separar o que é prazer físico do que é violência, tal como o que são reações automáticas daquilo que é um ato intencional e revelador de desejo. Quando os abusos acontecem antes do sobrevivente ter iniciado a sua vida sexual, e existe a ausência total de um modelo, a experiência do abuso pode passar a ser integrada como a referência do que é o sexo, sexualidade ou envolvimento sexual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isto pode levar o sobrevivente, mais tarde, a sentir-se atraído, excitado ou intrigado por estímulos que, sabendo ou não, estão associados ao abuso. Não porque deseje ser abusado novamente, mas porque a sua sexualidade foi condicionada em parte pela experiência traumática. O cérebro aprendeu — de forma distorcida — que aquele tipo de interação «faz parte» do erotismo ou da intimidade, ou mesmo que representa a forma como duas pessoas – em especial os homens – interagem entre si. Como se nas relações humanas houvesse sempre uma nuance sexualizada e um jogo de provocação e excitação sexual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para alguns homens, isso pode traduzir-se numa excitação involuntária perante situações ou circunstâncias que podem evocar contornos experienciados durante o abuso, nomeadamente algum tipo de controlo, humilhação ou dominação do outro sobre o sobrevivente. Noutros casos, pode identificar um padrão de envolvimento com pessoas ou dinâmicas que o deixam desconfortável, mas que parecem, no imediato, estranhamente familiares, intensas e que podem gerar uma forma de entusiasmo. A confusão instala-se: se me excita, será que gosto? Será que quero ou mesmo quis «aquilo»?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estas perguntas, carregadas de culpa e vergonha, são frequentes e profundamente injustas para os homens e rapazes que foram vítimas de abuso sexual. É fundamental compreender que o trauma sexual não afeta apenas a capacidade de confiar, de se sentir seguro ou de viver relações saudáveis. Pode instalar-se também na esfera do desejo. E quando isso acontece, muitos homens vivem em conflito permanente com o próprio corpo, como se este os tivesse traído da verdade e continue a traí-los.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><b>Terá o abuso sexual afetado a minha orientação?</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">É comum que homens sobreviventes de abuso sexual se perguntem se o que viveram teve impacto na sua orientação sexual. «Serei gay por causa do que me aconteceu?» ou «Gostaria de mulheres se não tivesse sido abusado?» são perguntas que surgem com frequência, muitas vezes acompanhadas por culpa, confusão ou vergonha. Por esta razão, é fundamental dizê-lo com toda a clareza: não há evidência científica que relacione o abuso sexual com a orientação sexual de uma pessoa. A orientação – seja ela heterossexual, homossexual, bissexual ou outra – não é causada por experiências de abuso. É uma parte natural e complexa da identidade humana, e não o resultado de uma vitimação sexual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também importa sublinhar que a orientação sexual de quem abusa não determina nem «contamina» a da vítima. Um rapaz abusado por um homem não se torna homossexual por isso, tal como um rapaz abusado por uma mulher não se torna heterossexual por essa razão. O que acontece, muitas vezes, é que o abuso introduz medo, repulsa ou confusão em torno da intimidade, o que pode dificultar a vivência plena da sexualidade, mas isso não altera a orientação, apenas complica a forma como ela é percebida, vivida ou expressada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em alguns casos, os abusadores exploram dúvidas já existentes. Sabendo que alguns meninos ou rapazes podem sentir-se «diferentes» ou estar em fase de questionamento, há abusadores que usam essa vulnerabilidade como estratégia de aproximação. Criam uma ligação emocional, validam a diferença, oferecem atenção e afecto — apenas para mais tarde manipular, coagir e abusar. Este tipo de predação reforça, na vítima, a ideia de que o abuso está relacionado com a sua orientação, quando, na realidade, foi a dúvida que foi instrumentalizada para abusar — não a orientação que causou o abuso.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><b>A vergonha e a confusão fazem parte do processo, mas há soluções</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir vergonha por ter ficado excitado durante o abuso, por ter tido fantasias com outros homens ou por se sentir sexualmente estimulado por algo que remete para o trauma, é comum entre homens sobreviventes. Muitos não compreendem as respostas do próprio corpo, e interpretam-nas como prova de que consentiram, quiseram ou «gostaram». Esta vergonha instala-se de forma silenciosa e corrosiva, impedindo-os de falar, de procurar apoio ou de compreender o que verdadeiramente viveram. A cultura de masculinidade dominante — que associa o desejo masculino ao controlo, à iniciativa e à virilidade — só reforça este mal-entendido e isola ainda mais quem sofre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Quebrar o Silêncio ajuda homens sobreviventes a resolver e superar estas e outras questões relacionadas com o abuso. Oferecemos um espaço de escuta e apoio especializado e qualificado. Connosco encontrará um local seguro onde pode falar, ao seu ritmo, sem juízos de valor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O abuso sexual de homens é uma realidade complexa e minada de mitos e ideias. Nós podemos ajudá-lo. Peça ajuda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">📞 910 846 589</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"> 📧 apoio@quebrarosilencio.pt</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>As mulheres também abusam sexualmente? A resposta é: sim</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/as-mulheres-tambem-abusam-sexualmente-a-resposta-e-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Apr 2025 10:54:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Masculinidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Trauma]]></category>
		<category><![CDATA[Violação de homens]]></category>
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					<description><![CDATA[Comecemos pelo fundamental: a violência sexual é uma experiência potencialmente traumática e pode ter um impacto devastador na vida das vítimas. Sabemos que a maioria das vítimas são mulheres e raparigas, mas os homens e rapazes também o são. Por exemplo, em oito anos de atividade, a Quebrar o Silêncio recebeu 830 pedidos de ajuda [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Comecemos pelo fundamental: a violência sexual é uma experiência potencialmente traumática e pode ter um impacto devastador na vida das vítimas. Sabemos que a maioria das vítimas são mulheres e raparigas, mas os homens e rapazes também o são. Por exemplo, em oito anos de atividade, </span><a href="https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/quebrar-o-silencio-recebeu-830-pedidos-de-ajuda-de-homens-e-rapazes-vitimas-de-violencia-sexual"><span style="font-weight: 400;">a Quebrar o Silêncio recebeu 830 pedidos de ajuda de homens e rapazes vítimas de abuso sexual</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também sabemos que a maioria dos abusadores são homens (e homens heterossexuais), mas tal realidade não significa que as mulheres não abusem sexualmente. Mesmo em minoria sabemos que, sim, as mulheres e raparigas abusam de homens e rapazes. Irmãs, primas, mães. Professoras, educadoras, vizinhas. Profissionais de saúde e outras áreas do cuidado.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">«A minha mãe abusava de mim, fingindo que era cuidado. No duche mexia-me nas partes íntimas. Foi assim desde sempre até eu ter 17 anos.»</span></i></p></blockquote>
<h3></h3>
<h3></h3>
<h3><b><br />
Crime invisível</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Se o abuso sexual de homens e rapazes é um crime bastante invisibilizado, os que são cometidos por mulheres são-no ainda mais. Tal como muitas pessoas, os próprios homens sobreviventes podem não saber e/ou não acreditar que as mulheres também são capazes de abusar sexualmente. Assim, quando são vítimas por parte de uma mulher, estes homens e rapazes podem crer que se tratou de relações sexuais (mesmo que sejam confusas, dolorosas e traumáticas), e não de crime.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">«A minha tia cuidava de mim quando os meus pais não podiam e nas brincadeiras pedia-me para me despir e lhe fazer coisas.»</p>
<p></span></i></p></blockquote>
<h3><b></p>
<p>Marcador de género</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O marcador de género influencia a forma como os casos de abusos sexuais perpetrados por mulheres são vistos. A visão tradicional e redutora da mulher maternal e cuidadora, contribui para a ideia de que as mulheres não sejam vistas como abusadoras e incapazes de cometer tais crimes. Esta representação errónea exacerba a perceção da dimensão do crime quando uma mulher abusa sexualmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, a visão tradicional do homem que está sempre disponível para ter relações sexuais e que é incapaz de dizer “não” aos avanços de uma mulher, contribui para invisibilizar os casos quando um rapaz é vítima de violência sexual por uma mulher. Nestas circunstâncias, o menino ou rapaz vitimado pode ser visto como “sortudo” e não como vítima, e o abuso como uma forma de iniciação sexual e não como uma agressão.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">«A minha mulher coagia-me a ter relações sexuais com ela quando eu não queria. Dizia-me que eu só podia ser gay ou que tinha um problema no pénis. A única forma de lhe provar que estava errada era tendo sexo com ela.»</span></i></p>
<p>&nbsp;</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro exemplo desta diferenciação de género está patente na forma como as notícias descrevem este tipo de crime. No contexto escolar, se um professor abusa sexualmente de uma aluna, o docente é adjetivado de abusador, pedófilo, pederasta, molestador ou violador, que “abusou”, “molestou” ou “violou” a vítima. Quando se trata de uma mulher, a abusadora é, frequentemente, referida apenas como professora ou docente, e o abuso é descrito como se fosse um relacionamento entre iguais, sendo comum ler-se “envolveu-se com o aluno”, “teve relações com o jovem”, “mantinha uma relação com aluno”, “fez sexo”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O marcador de género é evidente nestes casos, o que desvaloriza o crime no feminino e afasta a dimensão traumática desta forma de violência.</span></p>
<p><strong>Independentemente de quem abusa, o abuso sexual de homens e rapazes é uma realidade. Acontece nas diferentes fases de vida, desde a infância, passando pela idade adulta, até à senioridade.</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ajudamos homens vítimas de abuso sexual.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contacte a Quebrar o Silêncio:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">📞 910 846 589  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">📧 apoio@quebrarosilencio.pt </span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dia dos namorados: abuso sexual de homens em relações de intimidade</title>
		<link>https://www.quebrarosilencio.pt/blogue/dia-dos-namorados-abuso-sexual-de-homens-em-relacoes-de-intimidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ângelo Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Feb 2025 13:41:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[blogue]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Trauma]]></category>
		<category><![CDATA[Violação de homens]]></category>
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					<description><![CDATA[Com a aproximação do Dia dos Namorados, é comum sermos bombardeados com publicidade e referências a programas românticos. As redes sociais enchem-se de fotografias de casais felizes e manifestações públicas de afeto. Para muitos, esta data é uma celebração do amor, mas para os homens sobreviventes de violência sexual, pode ser um dia particularmente desconfortável [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Com a aproximação do Dia dos Namorados, é comum sermos bombardeados com publicidade e referências a programas românticos. As redes sociais enchem-se de fotografias de casais felizes e manifestações públicas de afeto. Para muitos, esta data é uma celebração do amor, mas para os homens sobreviventes de violência sexual, pode ser um dia particularmente desconfortável e doloroso, sobretudo quando enfrentam dificuldades em estabelecer e manter relações de intimidade saudáveis e duradouras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Perante esta efusão de amor e felicidade, um sobrevivente pode sentir-se deslocado, questionando a sua própria capacidade de amar e ser amado. A pressão social associada a esta data pode intensificar sentimentos de isolamento, inadequação e sofrimento, levando à crença errada de que nunca será possível viver uma relação plena e feliz. Muitas vezes, o trauma do abuso sexual afeta a forma como o sobrevivente se relaciona com os outros e consigo mesmo, podendo despertar ou intensificar emoções como tristeza, solidão e desesperança nesta época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, o discurso dominante em torno do Dia de São Valentim reforça a ideia de que a felicidade está necessariamente ligada a estar numa relação romântica, ignorando a importância do amor-próprio, do autocuidado e das diversas formas de relação significativas que existem para além do casal. Para um sobrevivente de violência sexual, o caminho para a superação do trauma pode passar por reconstruir a sua perceção sobre intimidade, aprender a confiar novamente e permitir-se viver relações que respeitem o seu ritmo e limites.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se é sobrevivente de violência sexual e sente que as consequências do que aconteceu estão a ter impacto na sua vida, saiba que não está sozinho. Existe apoio disponível, e nunca é tarde para procurar ajuda. A Quebrar o Silêncio está disponível para o receber através da Linha de Apoio 910 846 589 ou do email apoio@quebrarosilencio.pt. </span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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