A entrada num novo ano costuma vir acompanhada de expetativas elevadas, listas de resoluções e da perspetiva de um possível, e até mesmo obrigatório, “recomeço”. Para muitas pessoas, este ritual pode ser motivador. Para homens sobreviventes de violência sexual, porém, esta época do ano pode trazer desafios particulares e, até, problemáticos.
A pressão social para definir metas ambiciosas e objetivos de transformação pessoal pode tornar-se pesada. Muitos sobreviventes vivem já com uma exigência interna elevada, marcada por sentimentos de culpa, vergonha ou desvalorização. Quando se estabelecem metas irrealistas ou difíceis de alcançar, o risco é grande: o eventual falhanço pode ser interpretado como prova de incapacidade pessoal. Pensamentos como «não sirvo para nada» ou «nem isto consigo fazer» podem intensificar-se, afetando a autoestima e reforçando narrativas internas duras e injustas.
Em alguns casos, os objetivos definidos assumem um caráter quase punitivo. Metas excessivamente exigentes, mudanças radicais de comportamento ou compromissos impossíveis de manter podem funcionar como formas de auto exigência extrema ou mesmo de autopunição. Em vez de promoverem crescimento e bem-estar, acabam por gerar frustração, ansiedade e um sentimento de derrota antecipada. Para quem vive com as marcas de um trauma, esta dinâmica pode ser particularmente nociva, porque pode ativar padrões antigos de autocensura e de desvalorização.
É importante lembrar que o processo de recuperação não é linear nem obedece ao calendário do ano civil. Não existe obrigação de “começar do zero” em janeiro, nem de apresentar uma versão melhorada de si próprio apenas porque o ano mudou. Para muitos sobreviventes, a prioridade pode ser simplesmente manter alguma estabilidade, cuidar de si ou continuar um trabalho terapêutico já em curso. E isso é, por si só, válido e suficiente.
Quando se opta por definir metas, é fundamental que estas sejam realistas, poucas e alcançáveis. Objetivos pequenos e concretos tendem a ser mais protetores do que listas extensas e ambiciosas. Por exemplo, em vez de “mudar completamente de vida”, pode ser mais útil pensar em passos simples, como criar uma rotina de sono mais regular, reservar um momento semanal para algo prazeroso ou manter a assiduidade nas sessões de apoio. Cada pequeno avanço conta e merece ser reconhecido.
Algumas orientações que podem ajudar:
- escolher metas ajustadas ao momento atual de vida, e não a uma ideia idealizada de quem “deveria ser”;
- definir um ou dois objetivos, em vez de muitos;
- permitir flexibilidade, aceitando que haverá dias ou semanas mais difíceis;
- avaliar os progressos com gentileza, sem auto acusação.
Por fim, importa sublinhar que estabelecer metas é uma escolha, não uma obrigação. Há homens que preferem não o fazer, e isso também faz parte de um caminho legítimo. Para quem sente vontade e desejo de definir objetivos, fazê-lo com o apoio de um psicólogo pode ser particularmente útil. Em contexto terapêutico, é possível pensar metas que respeitem o ritmo individual, o impacto do trauma e as necessidades reais do sobrevivente, transformando este exercício num recurso de cuidado e não numa fonte adicional de sofrimento.
Na Quebrar o Silêncio, reforçamos que cada percurso é único. O ano novo não tem de significar vida nova à força. Pode, simplesmente, significar continuar, com mais apoio, mais consciência e mais auto cuidado.