A violência sexual tem um impacto profundo e duradouro na vida dos homens e rapazes, atingindo frequentemente uma dimensão que nem sempre é visível: a forma como passam a olhar para si próprios. Muitos sobreviventes descrevem uma sensação persistente de terem perdido algo fundamental. Não apenas a segurança ou a confiança nos outros, mas a própria forma como se percebem enquanto pessoas e enquanto homens.
Em casos de abuso sexual a autoestima pode ser profundamente afetada. Ideias como “há algo de errado comigo”, “sou fraco”, “sou sujo” ou “não mereço coisas boas” passam a ocupar espaço no pensamento diário. Estas crenças não surgem do nada: são frequentemente alimentadas pelo estigma social, pelos mitos sobre masculinidade e pelo silêncio que ainda envolve a violência sexual contra homens.
Para muitos sobreviventes, aceitar um elogio torna-se difícil, quase impossível; por sua vez, as críticas negativas parecem ficar cravadas no corpo. Sentir orgulho em si próprios pode parecer impossível. A perceção de valor pessoal fica comprometida e, com o tempo, essa visão negativa pode tornar-se uma lente através da qual passam a interpretar a própria vida.
A violência sexual também pode afetar profundamente a forma como os homens se veem enquanto homens. Vivemos em sociedades que continuam a associar masculinidade à força, ao controlo, à invulnerabilidade e à capacidade de se defender. Quando um homem é vítima de violência sexual, estas ideias podem transformar-se em acusações internas devastadoras: “Se eu fosse um homem a sério, isto não teria acontecido.”
Esta narrativa é injusta e errada, mas tem consequências reais. Muitos sobreviventes podem passar anos a questionar a própria masculinidade, a sua identidade e o seu lugar no mundo.
Com o tempo, estas perceções podem influenciar decisões importantes da vida. Há homens que evitam relações íntimas por medo, vergonha ou desconfiança. Outros sentem dificuldade em comunicar os seus limites, em confiar nas pessoas ou em reconhecer que merecem cuidado e respeito.
A relação com o próprio corpo também pode mudar. Alguns sobreviventes relatam sentir-se desligados de si mesmos, como se habitassem um corpo que deixou de lhes pertencer plenamente. Outros desenvolvem sentimentos de repulsa, culpa ou estranheza em relação ao próprio corpo.
Estas experiências podem ainda influenciar o percurso profissional, as relações familiares, a vida afetiva e sexual e até a forma como a pessoa imagina o seu futuro. Quando a autoestima é destruída, o horizonte pode parecer mais curto. O sobrevivente pode acreditar que não merece felicidade, estabilidade ou amor.
Com apoio da Quebrar o Silêncios, os homens desenvolvem ferramentas para reconstruir a forma como se veem a si próprios. A recuperação do trauma não significa apagar o que aconteceu, mas aprender a olhar para si com mais compaixão, dignidade e verdade.