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22 de Dezembro de 2025

Eu fui vítima de vários episódios de abuso sexual e as agressoras foram sempre mulheres — testemunho de Jorge

Eu fui vítima de vários episódios de abuso sexual e as agressoras foram sempre mulheres.

Há um ano atrás, era impensável para mim escrever estas palavras na mesma frase: ‘vítima’, ‘abuso’, ‘agressoras’, ‘mulheres’.

Quando procurei a Quebrar o Silêncio, era dominado por uma evidente Síndrome de Impostor: sentia que as minhas experiências não eram assim tão graves, comparadas com a de muitos homens, e que eu estaria a ocupar o lugar de alguém que “merecia mais”. A verdade é que ninguém merece ser abusado sexualmente. E não existe algo como “pouco” ou “muito” abuso.

Mesmo nas primeiras sessões com a Dr.ª Mariana, tinha muita relutância em ver-me como vítima. “Eu sou homem.”; “Eu podia ter parado.”; “Eu era fisicamente mais forte.”; ou “Eu sou o culpado.”; eram pensamentos que ruminavam na minha cabeça há anos.

Perceber que ser vítima de abusos sexuais e que nunca foi culpa minha, foi um ensinamento libertador que jamais teria aprendido sem a Quebrar o Silêncio e a Dr.ª Mariana.

O primeiro caso de abuso foi com uma professora, aos 11 anos. Só falei dele pela primeira vez, a um amigo, 15 anos mais tarde.

O segundo, foi num relacionamento de um ano e meio com uma mulher de 21: eu tinha 15. Deixando de parte os incontáveis episódios de chantagem emocional (muitos deles a roçar o crime), a relação terminou porque eu recusei a ter sexo com ela – a reação dela ao meu “Não” foi agredir-me.

O terceiro, quarto e quinto casos, sempre com mulheres, aconteceram aos 24 e 25 anos, com experiências casuais: encheram-me de substâncias para me acordar e ter sexo sem consentimento, tentaram sufocar-me sem aviso, tiraram-me fotografias nu e, o pior, não respeitaram o meu “Não” – dito de forma repetida – forçando-se física e psicologicamente em mim e levando-me a ter relações sexuais não consentidas de forma repetida na mesma noite.

Sou, como muitos de nós, um produto de uma sociedade machista. Onde os miúdos não têm informação sobre sinais de abusos sexuais e onde um homem não pode ser vítima de violação de uma mulher. Por isso, nem assumi estes casos, inicialmente, como violência sexual. Eram apenas “experiências más”. E assumi que eu estava destinado a ter mau sexo a minha vida toda. Que o problema era Eu, ou talvez uma qualquer questão metafísica de Karma ou astrologia: mas jamais Elas.

Passei a ver o sexo como uma obrigação e a intimidade como uma ameaça que eu deveria evitar a qualquer custo – e assim foi durante demasiado tempo.

Duvidei da minha orientação sexual, da minha capacidade de confiar e me ligar emocionalmente às pessoas e, após um período conturbado despontado por uma fratura peniana, perdi o controlo sobre as minhas emoções, entrando num loop de ansiedade, depressão e o início de ideação suicida.

Nunca vou esquecer a noite em que me apercebi pela primeira vez, através da informação no site da Quebrar o Silêncio, que eu poderia ter sido vítima. Senti a dor emocional de todas as experiências de uma só vez. Nunca me senti tão pequeno. Pensava que estava quebrado para sempre. Mas só precisava mesmo de quebrar o silêncio.

A Dr.ª Mariana guiou-me por todo o processo, de altos e baixos, mas muito consistente. E algo foi sarando, lentamente, em mim. Foi das experiências mais transformadoras da minha vida e, hoje, sinto-me um homem novo, mais seguro, mais confiante e conhecedor dos seus limites.

A cereja no topo do bolo?

Hoje, meses depois de iniciar este processo, estou a conhecer uma mulher incrível. Que me faz sentir que nunca é tarde, que nem todas as mulheres são iguais, que o sexo não é uma performance e que não temos de esconder as nossas cicatrizes de quem em nós só vê amor.

Isto também é possível para ti. Dá o primeiro passo. Eu sei que mete medo, mas podes confiar em mim: é seguro.

Jorge, 28 anos