Iniciar ou manter uma relação amorosa pode ser um desafio particularmente exigente para os sobreviventes, ainda que, para as outras pessoas, essa dificuldade não seja percetível.
Com a proximidade do Dia de São Valentim, é comum sermos bombardeados com publicidade a jantares românticos, escapadinhas a dois e presentes “perfeitos”. As redes sociais enchem-se de fotografias de casais felizes, declarações públicas de amor e promessas de felicidade a dois. Para muitas pessoas, este dia é vivido como uma celebração. Para outros, para os homens sobreviventes de violência sexual, o Dia dos Namorados pode ser particularmente desconfortável e doloroso.
A violência sexual deixa marcas profundas na forma como uma pessoa se relaciona com o próprio corpo, com a intimidade e com os outros. Muitos sobreviventes enfrentam dificuldades em criar ou manter relações íntimas saudáveis e duradouras. O contacto físico, a proximidade emocional, a vulnerabilidade e a confiança — elementos frequentemente romantizados nesta data — podem estar associados a medo, confusão, culpa ou vergonha. Iniciar ou manter uma relação amorosa pode ser um desafio particularmente exigente para os sobreviventes, ainda que, para as outras pessoas, essa dificuldade não seja percetível.
Perante esta exibição constante de amor e felicidade, o sobrevivente pode sentir que está a falhar. Pode comparar-se com o que vê à sua volta e concluir, injustamente, que há algo de errado consigo por não conseguir manter uma relação ou por não sentir que não corresponde ao que “deveria” sentir. Não é raro surgirem pensamentos como: “Nunca vou ser capaz de amar”, “Ninguém me vai amar” ou “Nunca serei feliz numa relação”. Estes pensamentos podem ser profundamente desconcertantes e gerar sentimentos intensos de tristeza, solidão e desesperança em relação ao futuro.
A pressão social associada ao Dia de São Valentim agrava este sofrimento. A ideia de que é preciso estar numa relação para ser feliz, completo ou valorizado é repetida até à exaustão. Para um sobrevivente, esta narrativa pode reforçar a sensação de exclusão e inadequação, como se estivesse permanentemente fora do lugar, a assistir a uma felicidade que lhe parece inacessível.
Há ainda outro aspeto frequentemente esquecido: o trauma não afeta apenas a relação com os outros, afeta também a relação consigo próprio. Muitos homens sobreviventes carregam uma visão distorcida do seu valor, da sua desejabilidade e da sua capacidade de estabelecer vínculos seguros. Datas como o Dia dos Namorados podem reativar feridas antigas, despertar memórias difíceis ou intensificar a autocrítica e o isolamento.
É importante lembrar que o amor não se resume a uma relação romântica, nem a felicidade depende de estar acompanhado. O discurso dominante em torno do Dia de São Valentim ignora a importância do amor-próprio, do autocuidado e das múltiplas formas de relação significativa — amizades, relações familiares, ligações comunitárias ou, simplesmente, a construção de uma relação mais segura consigo próprio.
Para homens sobreviventes de violência sexual, o caminho passa muitas vezes por reconstruir, passo a passo, a noção de intimidade, aprender a confiar novamente e permitir-se viver relações que respeitem o seu ritmo, os seus limites e a sua história. Não há prazos, modelos nem obrigações. Não estar numa relação não é um fracasso. Sentir dificuldade em amar não é uma falha pessoal: é, muitas vezes, uma resposta ao trauma.
Se o Dia de São Valentim lhe trouxer desconforto, tristeza ou isolamento, procurar apoio pode fazer a diferença. Falar com alguém que compreenda o impacto da violência sexual na vida emocional e relacional é um passo legítimo e importante. Na Quebrar o Silêncio, estamos aqui para apoiar hoje, neste dia, e em todos os outros.