Para muitos, o Dia da Mãe é sinónimo de afeto, gratidão e celebração. Para alguns homens sobreviventes de violência sexual, é um dia atravessado por silêncio, ambivalência e dor, sobretudo quando a figura materna esteve diretamente envolvida no abuso ou falhou em proteger.
Socialmente, esta é uma data em que as redes sociais se enchem de fotografias, mensagens de carinho e gestos públicos de reconhecimento. No entanto, para alguns homens que foram vítimas de violência sexual na infância, este dia pode desencadear memórias difíceis, sentimentos contraditórios e uma sensação de deslocação face ao discurso dominante. Não se trata de negar que, para muitos, a relação com a mãe é fonte de cuidado e segurança. Trata-se de reconhecer que nem todas as histórias cabem nesse molde.
Há sobreviventes que foram abusados sexualmente pelas próprias mães. É uma realidade raramente falada e profundamente envolta em descrença social. A figura da mãe continua a ser, culturalmente, associada à proteção, ternura e sacrifício. Essa imagem torna ainda mais difícil nomear o que aconteceu, acreditar em si próprio e ser acreditado pelos outros.
Tal como noutros casos de abuso, o impacto pode ser profundo. Além do trauma vivido, existe uma quebra radical do vínculo de confiança com quem deveria ser um porto seguro. Surgem sentimentos de confusão, culpa e vergonha, bem como uma dificuldade em compreender o que é afeto, proximidade e limites.
Neste contexto, o Dia da Mãe pode tornar-se um espaço de conflito interno: entre a expectativa social de celebrar e a necessidade de se proteger.
Noutros casos, há também histórias em que a mãe não foi quem abusou, mas sabia ou suspeitava e não agiu. Nessas circunstâncias, desvalorizou, negou ou culpabilizou o filho; noutras, manteve-se em silêncio, por medo, dependência ou incapacidade de lidar com a situação.
Para quem viveu esta experiência, a dor não se limita ao abuso. Inclui o abandono, a negligência e a traição; a perda de um lugar de segurança que nunca chegou a existir. A ausência de proteção pode ser vivida como uma confirmação de desvalor: «se ninguém me defendeu, talvez eu não merecesse ser protegido».
No Dia da Mãe, estas feridas podem reabrir-se. Não há postal que resolva a ambivalência de sentimentos que coexistem: afeto, raiva, saudade do que não foi, necessidade de distância.
Não existe uma forma “certa” de viver este dia. Existe, sim, a necessidade de respeitar o próprio limite. Por isso, neste Dia da Mãe, importa também lembrar quem não celebra e afirmar que todas as experiências de violência sexual são válidas, mesmo aquelas que a sociedade não vê.
Se este dia lhe é difícil, não tem de o atravessar sozinho. Fale connosco.