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12 de Maio de 2026

Quem são os homens e rapazes que procuram a Quebrar o Silêncio?

Quando se fala de homens vítimas de violência sexual, muitas pessoas imaginam alguém distante, à margem da sociedade, com ar “traumatizado” e que seja facilmente identificável. Continuam a persistir ideias erradas sobre quem pode ser vítima, como se existisse um “tipo” específico de homem que sofre violência sexual.

Mas a verdade é que estes homens não vivem noutra realidade. Não têm uma aparência específica. Não carregam um sinal visível que os identifique.

São os homens que fazem parte da nossa vida quotidiana.

São os nossos amigos, colegas de trabalho, familiares, vizinhos. São os homens com quem trabalhamos, com quem nos cruzamos no café, no supermercado, no ginásio ou no comboio.

São CEOs de empresas, professores, médicos, enfermeiros, investigadores, artistas, estudantes, empregados de mesa, motoristas, atletas, políticos, técnicos, músicos e desempregados. São figuras públicas e homens anónimos. Alguns vivem rodeados de pessoas; outros vivem isolados.

Há sobreviventes solteiros, casados, divorciados, pais, avôs, jovens adultos e homens mais velhos. Alguns são extrovertidos e faladores; outros introvertidos e reservados. Há quem tenha uma vida social intensa e quem evite contacto com outras pessoas. Há homens que parecem “fortes”, confiantes e seguros. Há outros visivelmente marcados pela ansiedade, pela insegurança ou pelo medo.

Há sobreviventes heterossexuais, gays, bissexuais, pansexuais e homens que não se identificam com qualquer etiqueta ou definição específica da sua sexualidade. A violência sexual atravessa todas as orientações sexuais e identidades, embora continue a existir a ideia errada de que determinados homens estão mais “protegidos” ou menos vulneráveis à violência.

Existem sobreviventes apaixonados por cinema, música, desporto, literatura, natureza ou tecnologia. Alguns conseguem manter rotinas e relações estáveis; outros vivem em permanente sensação de desconexão consigo próprios e com os outros.

A violência sexual não escolhe profissão, personalidade, estatuto social, orientação sexual, corpo, masculinidade ou estilo de vida. Mas os sobreviventes tornam-se especialistas em esconder aquilo que sentem. Há homens que sorriem enquanto vivem com a sensação de que estão profundamente destruídos por dentro.

Há homens que trabalham, fazem piadas, cuidam dos filhos e mantêm conversas banais enquanto carregam memórias traumáticas que nunca partilharam com ninguém. Durante anos, muitos acreditam que estão sozinhos. Que aquilo que viveram é tão sujo e tão hediondo que não poderá ser falado. Que ninguém os irá compreender ou acreditar.

É precisamente por isso que os mitos são tão perigosos. Porque afastam os homens do reconhecimento da violência e do acesso a apoio.

 

Vítimas ou sobreviventes?

Quando imaginamos que uma vítima tem de parecer frágil, vulnerável ou permanentemente destruída, ignoramos a realidade complexa do trauma. Muitos sobreviventes aprendem a sobreviver funcionando. Outros desligam-se emocionalmente. Outros oscilam entre períodos de aparente estabilidade e sofrimento intenso.

Não existe uma única forma de ser sobrevivente. Não existe um guião para as vítimas nem um guião para a sobrevivência.

E talvez a pergunta mais importante não seja “quem são estes homens?”, mas sim: quantos deles vivem em silêncio à nossa volta sem que alguma vez encontrem nas pessoas que os rodeiam a segurança necessária para partilhar as suas histórias de abuso?

 

Reconhecer isto é fundamental para combater a invisibilidade da violência sexual contra homens e rapazes. Porque enquanto continuarmos à procura de uma imagem estereotipada da vítima, continuaremos a falhar em ver as pessoas reais que passaram por abusos sexuais e experiências traumáticas.