Um dos mitos mais cruéis e persistentes sobre os homens sobreviventes de violência sexual contra crianças é a ideia de que quem foi vítima está condenado a tornar-se num abusador.
Não está.
Ter sido vítima de abuso sexual não significa que uma pessoa vá abusar de outras. Não existe uma relação direta de causalidade entre ter sido vítima e tornar-se abusador. A esmagadora maioria dos sobreviventes não comete violência sexual.
Este mito não é inofensivo. Faz com que homens sobreviventes sejam olhados com suspeita, temam estar perto de crianças ou constituir família e, em alguns casos, se questionem obsessivamente sobre a possibilidade de se tornarem semelhantes a quem lhes fez mal — mesmo sem nunca terem sentido qualquer desejo ou intenção de abusar de uma criança.
E contribui para o silêncio. Porque contar o que aconteceu pode significar correr o risco de deixar de ser visto como vítima e passar a ser olhado como uma potencial ameaça.
Na realidade, a experiência de abuso pode levar os homens sobreviventes a tornarem-se particularmente atentos e protetores em relação aos seus filhos: mais vigilantes sobre com quem ficam, onde dormem, os ambientes que frequentam ou os sinais de desconforto que manifestam. Uma proteção que pode ser intensificada pelo receio de que os filhos venham a passar pelo mesmo.
Ser vítima não transforma ninguém num abusador. E nenhum sobrevivente deveria ter de carregar, além do impacto do abuso, a suspeita de que poderá tornar-se na pessoa que o vitimou.