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2 de Março de 2026

Extorsão sexual: testemunhos de quem foi vítima

Tiago (nome fictício), 32 anos

«Aconteceu tudo muito rápido, na minha pausa para almoço. Recebi uma mensagem no Instagram de uma rapariga que parecia ter a minha idade. Começámos a falar, a conversa parecia normal e, quando dei por mim, já tínhamos trocado algumas fotos e vídeos. Logo a seguir, ela revelou que afinal era um homem e começou imediatamente a exigir dinheiro. Ao mesmo tempo, criou grupos de mensagens com a minha família, amigos e colegas de trabalho. Foi um choque total. As mensagens não paravam, com ameaças, contagens decrescentes e uma pressão enorme para eu pagar. Entrei em pânico, sem saber o que fazer, com medo de que a minha mulher descobrisse e arruinasse o casamento. Felizmente, tive um momento de lucidez, fui pesquisar na internet e encontrei o site da Quebrar o Silêncio. Liguei para a associação na hora. Sinceramente, foi isso que me salvou.»

 

Marcelo (nome fictício), 63 anos

«Conheci-a nos grupos no Facebook. Foi logo muito direta e disse que procurava companhia e que queria sentir-se protegida por um homem mais velho. Tinha um ar muito jovem e uma conversa bastante provocadora, por isso lembro-me de lhe perguntar várias vezes a idade. Garantiu-me sempre que era maior de idade.

»A conversa tornou-se íntima muito depressa e eu acabei por corresponder. Ela enviava fotos e vídeos e pedia-me que fizesse o mesmo. Quando enviei os meus, tudo mudou. Fui contactado por alguém que dizia ser um alto comandante da Polícia Angolana. Disse-me que afinal ela era menor e que a mãe tinha apresentado uma queixa contra mim por pedofilia. Entrei imediatamente em pânico. Tentei explicar o que tinha acontecido e que ela tinha mentido, mas disseram-me que a denúncia avançaria a não ser que eu pagasse 1500 euros à polícia que eles tratavam de transferir à mãe dela.

»Foi só quando contactei a Quebrar o Silêncio que percebi o que estava realmente a acontecer. Explicaram-me que as autoridades não fazem este tipo de contacto, não pedem pagamentos e não fazem mediações deste género. Segui as indicações que me deram, bloqueei todos os contactos e não paguei nada. Foi isso que me safou. Só assim a situação parou.»

Em relação ao caso de Marcelo, a Quebrar o Silêncio tem registado vários casos que seguem um guião semelhante: o homem vitimado é contactado por uma mulher que se apresenta como maior de idade, a qual desenvolve uma relação online para trocar mensagens, fotografias ou vídeos íntimos e sexualizados. Imediatamente após a troca, o homem é contactado por alguém que se faz passar por polícia ou figura de autoridade, alegando que a pessoa era afinal menor, seguindo-se a extorsão em jeito de mediação.

«Este esquema tem-se revelado extremamente eficaz em gerar pânico, numa tentativa de forçar o pagamento imediato. E é precisamente esse choque súbito, essa sensação paralisante de que a vida pode desmoronar-se num segundo, que os extorsionários exploram até ao limite», afirma Ângelo Fernandes.

 

Rui (nome fictício), 45 anos

«O meu caso começou depois de uma separação complicada. Estava sozinho, a sentir-me em baixo, e voltei a usar aplicações de encontros. Conheci alguém que parecia interessada em ouvir-me e em perceber o que eu estava a passar. Falámos sobre a minha vida, o trabalho e os filhos. A certa altura, a conversa tornou-se mais íntima e trocámos algumas fotos e vídeos, acreditando que era uma pessoa de confiança.

»Mal enviei os ficheiros, recebi uma mensagem completamente diferente. Mandaram-me uma montagem das minhas fotos, onde não se via a minha cara, mas coladas à imagem do meu perfil para que as pessoas percebessem que era eu. Ameaçavam enviá-las para a minha ex-mulher e para colegas de trabalho se eu não pagasse. Tive medo que isso prejudicasse o meu divórcio e acabei por pagar 150 euros, mas não serviu de nada. Pediram mais e criaram um grupo de conversa no Instagram com pessoas que me seguiam nas redes sociais. Voltei a pagar mais 250 euros e, em menos de uma semana, já tinha enviado um total de 3 mil euros. Estava desesperado, mas cada vez que enviava dinheiro a chantagem não parava, apenas aumentava.

»Eu nem fazia ideia de que aquilo fosse crime ou que se chamava extorsão sexual. Só queria que tudo acabasse, porque tinha medo de perder o contacto com os meus filhos e de ser humilhado. Sentia-me ridículo por ter caído neste esquema e nem sei o que me passou pela cabeça para enviar um vídeo em que se via a minha cara.

»Quando pedi ajuda à Quebrar o Silêncio, explicaram-me que se tratava de extorsão e que eu não tinha de lidar com aquilo sozinho, mas nessa altura já tinha enviado mais dinheiro. No total, paguei mais de 6 mil euros.»