A Quebrar o Silêncio, que presta apoio especializado a homens e rapazes vítimas de violência sexual, acompanha com profunda preocupação as notícias relativas à detenção do adjunto da ex-Ministra da Justiça, suspeito de abuso sexual de crianças e posse de conteúdos de abuso sexual de crianças, incluindo vítimas portuguesas.
Este episódio é mais um exemplo alarmante de uma realidade que insistimos em salientar: os abusadores não são figuras marginais, isoladas ou ‘monstros’ que se identificam facilmente pelo ar fortemente suspeito ou asqueroso. Pelo contrário, tratam-se, muitas vezes, de homens social e profissionalmente bem integrados, com carreira, formação, relações sociais e posições de confiança na sociedade.
A Quebrar o Silêncio destaca que:
- não existe um “perfil social” que distinga um abusador de outros homens;
- não são identificáveis apenas pela forma como se apresentam ou se comportam em contextos sociais ou profissionais;
- podem ocupar cargos públicos, exercer profissões reconhecidas e manter redes de contacto aparentemente reputadas, e, ainda assim, cometer crimes sexuais contra crianças de enorme gravidade.
O caso agora em investigação, em que o suspeito desempenhou funções de adjunto no Ministério da Justiça e terá perpetrado crimes que afetaram pelo menos duas crianças portuguesas, ilustra precisamente a realidade perturbadora da violência sexual contra crianças: homens que parecem “normais”, insuspeitos ou bem-sucedidos e que, nos seus comportamentos privados, violam crianças e jovens.
É fundamental que a sociedade e as instituições não confundam a ‘aparência socialmente aceitável’ com a ausência de risco ou de violência. O estigma social que associa a violência sexual apenas a perfis marginais só contribui para a invisibilidade do crime e para o silenciamento das vítimas. Muitos sobreviventes veem o seu sofrimento intensificado por receio de não serem levados a sério, ou por medo de retaliações sociais ou profissionais.
A Quebrar o Silêncio reafirma que a violência sexual pode ocorrer em qualquer estrato social, em qualquer contexto e perpetrada por pessoas que, externamente, parecem perfeitamente integradas. Esta realidade exige uma resposta coletiva mais informada, mais vigilante e mais comprometida com a proteção das crianças e jovens.
A Quebrar o Silêncio continuará a acompanhar os desenvolvimentos deste caso, apoiando as vítimas e lembrando que a proteção das crianças e jovens deve ser sempre uma prioridade inadiável.