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19 de Janeiro de 2026

Sabe o que é incesto emocional?

Incesto emocional pode ser descrito como a proximidade emocional e sexualizada por parte dos cuidadores, e por isso inadequada e imprópria, em relação à criança e ao papel que esta desempenha na família. Mesmo que não se concretize no abuso sexual físico, o incesto emocional (ou camuflado) trata-se de um modelo de relação pouco saudável em que os pais e/ou cuidadores esbatem os limites dos seus papéis e responsabilidades, e elevam a criança ao nível de parceiro. Mesmo que as pessoas adultas não tenham perceção e consciência dos seus atos, esta proximidade pode ter consequências devastadoras e afetar o desenvolvimento saudável da criança.

«O bem-estar e as necessidades emocionais dos pais vêm sempre em primeiro lugar.»

Nestes casos, as crianças não são protegidas e cuidadas, mas sim levadas a inverter os papéis e a assumir o lugar de cuidador dos próprios progenitores (parentificação), sendo solicitadas para ajudar na resolução de problemas (emocionais, íntimos, etc) e até mesmo para dar conselhos românticos. Neste modelo de relação é comum que as crianças não vejam as suas necessidades asseguradas, pois no centro desta dinâmica familiar estão só as necessidades dos pais.

«O incesto emocional pode afetar o desenvolvimento saudável da criança e ter consequências devastadoras.»

Para a criança, esta relação é imensamente confusa visto que a deixa sem saber qual é o seu lugar e também quais são os limites do que é inadequado e impróprio na relação que os pais ou cuidadores estabelecem com ela. É possível que desenvolva na criança um sentimento de responsabilização pelo bem estar dos progenitores que pode gerar sentimentos de culpa.

«O incesto emocional não requer contacto físico»

 

 

Sinais de incesto emocional

O incesto emocional pode ter uma carga altamente sexualizada. Por exemplo quando os pais:

  • invadem a privacidade da criança e não respeitam os limites do seu corpo, fazendo referências ou comentários sexualizados sobre o corpo da criança.
  • dormem na mesma cama com ela até a uma idade avançada.
  • têm conversas sobre encontros sexuais que tiveram ou levam a criança para encontros amorosos.
  • romantizam e sexualizam a relação sem nunca haver uma concretização propriamente física, o que resulta num estado de confusão da criança relativamente à relação que os pais têm com ela ou qual o seu papel nessa relação. 
  • confidenciam com a criança algo íntimo e sexual, cujo teor pode ser incompreensível para ela, levando-a a sentir que tem um papel diferente, especial ou até mesmo privilegiado.

 

Outros sinais que podem ser comuns são quando os pais:

  • pedem que o filho os conforte (desabafam ou choram para chamar a atenção da criança);
  • partilham segredos íntimos e de teor sexualizado (ex: fazer queixas sobre a vida sexual dos próprios pais);
  • centram a atenção da criança neles, desencorajando que ela tenha amizades com os seus pares;
  • demonstram ciúmes quando a criança passa tempo longe deles ou quando a criança apresenta mais autonomia e desejo de liberdade;
  • usam a criança como fonte de elogios, glorificação e reforço emocional.

Consequências do incesto emocional

Como consequência é comum que a criança:

  • se sinta mais adulta do que os seus pares e sinta ter mais maturidade do que na realidade tem.
  • passe a ser o “ombro amigo” e seja usada quando os cuidadores precisam, quando confidenciam pormenores das suas vidas que não contam a mais ninguém, o que pode contribuir para que ela se sinta, a determinada altura, especial.
  • seja negligenciada e em detrimento do bem-estar dos cuidadores.
  • não tenha o tempo necessário com os seus pares nem desenvolva relações de amizade saudáveis.
  • se sinta responsável pelas emoções dos outros e pelo bem-estar das outras pessoas, acabando por desenvolver atitudes de constante cuidado para com e de tentar agradar ao outro.
  • desenvolva sentimentos ambivalentes de amor/ódio pelo progenitor que pratica incesto emocional.
  • venha a ter problemas de gestão e regulação das emoções, afetando o seu desenvolvimento.
  • se torne num adulto sem consciência dos seus limites, sem a noção de que pode dizer que «não», tendendo a se anular e se focar apenas no que o outro quer (ex: na gratificação e prazer do outro)

 

Por último, nestas circunstâncias, é comum a criança tornar-se mais vulnerável à violência sexual. Um abusador pode identificar essa fragilidade e aproximar-se oferecendo atenção, escuta e apoio, assumindo o papel de um adulto de confiança. Esta aproximação é deliberada e visa criar dependência emocional, isolar a criança, ultrapassar limites e, progressivamente, normalizar a sexualização da relação.

Casos reais que chegam à Quebrar o Silêncio

Na Quebrar o Silêncio, muitos dos homens que foram vítimas de violência sexual relatam que viveram em ambientes familiares pouco centrados nas necessidades da crianças (mesmo que, para terceiros, isso não fosse óbvio) e também com modelos de relação pouco saudáveis, como é o caso do incesto emocional.

É comum serem referidos exemplos de mães que entram sem autorização no banho do filho, já adolescente, com o pretexto de que vão inspecionar e certificar-se que a zona genital está lavada corretamente, mães que dormem na mesma cama com o filho até este ser adulto, ou em que há uma relação com uma carga sexualmente presente que deturpa o papel de filho e o torna num confidente/melhor amigo ou algo mais. Há relatos onde é possível determinar que houve a normalização da nudez (por exemplo um homem adulto que não tem qualquer privacidade ou limites na exposição do seu corpo perante a mãe) e a normalização de conversas acerca da vida sexual e intimidade do homem (perguntas intrusivas sobre relações sexuais que o homem teve).

No caso das mulheres, existem também casos igualmente desadequados, em que os pais se apresentam como o namorado das filhas, o futuro marido, a cara-metade, ou o seu príncipe, entre outras situações.

Incesto emocional como forma de abuso

Esta dinâmica familiar (ainda) não vem referenciada no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-5), mas não deixa, por isso, de ser alvo de estudo e investigações. Existem teorias e ferramentas para identificar sinais de que possa estar a acontecer e quais as suas consequências como, por exemplo, a escala Childhood Emotional Incest Scale (CEIS).

Para algumas pessoas o incesto emocional é uma forma de abuso sexual de crianças, para outras não é, mas como Kathy Hardie-Williams refere, não deixa de ser uma forma de abuso e violência contra a criança. Independentemente da posição individual de cada um, não podemos negar a relação que tem com a violência sexual contra crianças, nomeadamente a de criar mais vulnerabilidades para que as crianças sejam vitimadas.

 

Precisa de ajuda?

Se passou por uma relação de incesto emocional ou foi vítima de violência sexual, contacte-nos:

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