Esta é uma pergunta que muitos sobreviventes de violência sexual fazem. Surge, muitas vezes, durante o processo de compreender o que aconteceu, de lidar com as consequências do abuso e de tentar encontrar uma forma de seguir em frente.
Não é uma dúvida isolada. Para muitos homens sobreviventes, existe em algum momento o desejo ou a intenção de confrontar quem que os abusou. Pode surgir anos depois. Pode aparecer quando o sobrevivente começa finalmente a falar sobre o que aconteceu. E pode assumir diferentes formas: imaginar uma conversa, escrever uma carta que nunca chega a ser enviada ou, simplesmente, pensar no que gostaria de lhe dizer se tivesse essa oportunidade.
Mas o que procuramos realmente quando pensamos nesse confronto?
Um pedido de desculpa? Que o abusador reconheça aquilo que fez? Que admita que foi abuso e não uma “brincadeira”? Que assuma a responsabilidade pelo sofrimento que causou? Que reconheça as consequências que o abuso teve na vida do sobrevivente?
Estas expectativas são compreensíveis. Quando alguém nos causa um dano profundo, é natural tentar perceber o porquê de tal ter acontecido e desejar que essa pessoa reconheça o que fez. O problema é que, quando colocamos a nossa recuperação nas mãos de quem nos magoou, entregamos também a essa pessoa parte do poder sobre o nosso processo de superação.
E se o abusador negar? E se disser que o sobrevivente quis? Que desejou? Que gostou? Que participou voluntariamente? Que consentiu? Que nem sequer foi abuso?
Para um homem sobrevivente que passou anos a questionar o que aconteceu, uma resposta deste tipo pode ser profundamente dolorosa. Pode reabrir dúvidas, vergonha e sentimentos de culpa que estavam a começar a ser trabalhados. Pode reforçar a sensação de não ser acreditado. Pode intensificar sentimentos de raiva , revolta, impotência e injustiça por o que lhe foi feito e transformar aquilo, que se esperava ser um momento de reconhecimento, num novo confronto com a negação.
Há ainda uma realidade que torna esta pergunta particularmente difícil: nem sempre é possível confrontar o abusador. Pode não se saber quem ele é. Pode não se saber onde está e qual o seu paradeiro. Pode ter desaparecido da vida do sobrevivente. Ou pode já ter morrido.
Nestas circunstâncias, o que acontece então ao processo de recuperação? Se a nossa superação depender da resposta do abusador, ficamos presos a algo que não controlamos.
Por isso, na Quebrar o Silêncio, entendemos que a resolução deste confronto deve ser, antes de mais, interna e pertencer ao sobrevivente. Não significa esquecer. Não significa perdoar. Não significa deixar de procurar responsabilização ou justiça. E muito menos significa retirar ao abusador a responsabilidade pelo que fez. Significa reconhecer que a recuperação não pode ficar dependente daquilo que o abusador pensa, diz ou faz.
O sobrevivente pode precisar de fazer o luto daquilo que lhe aconteceu, pelas consequências que o abuso teve na sua vida e, muitas vezes, por aquilo que gostaria de ter recebido e não recebeu. Pode precisar de reconstruir a relação com o próprio corpo, com a intimidade, com a confiança e com os outros. Pode precisar de compreender as marcas que a violência deixou e de encontrar formas de viver para além delas.
É esse trabalho que pode devolver ao sobrevivente aquilo que o abuso lhe retirou: o controlo sobre a própria vida.
O abusador pode nunca pedir desculpa. Pode nunca reconhecer o crime. Pode continuar a negar. Pode nem sequer estar vivo. Ainda assim, é possível trabalhar o trauma, reconstruir a vida e deixar de permitir que aquilo que o abusador pensa sobre o que aconteceu determine aquilo que o sobrevivente pensa sobre si próprio.
A resposta que procuramos talvez não esteja, afinal, no confronto com quem nos fez mal, mas sim na capacidade de deixar de precisar que essa pessoa reconheça a nossa verdade para que nós próprios possamos reconhecê-la.