Talvez uma das ideias mais difíceis de compreender sobre a violência sexual é que nem todas as experiências associadas ao abuso são, em cada momento, sentidas como negativas. Pode haver prazer, afeto ou até uma (falsa) sensação de segurança durante um ato de violência sexual. Mas atenção: tal não significa que o abuso tenha sido consentido. Na infância, (fase da vida em que não é sequer possível para uma criança consentir quaisquer contactos sexualizados com adultos) esta realidade pode ser particularmente difícil de compreender quando o abuso é camuflado por brincadeiras, atenção e afeto. Na idade adulta, uma resposta física involuntária pode produzir a mesma confusão: o corpo pode responder de uma forma que não corresponde àquilo que a pessoa quer ou deseja.
Para um homem sobrevivente, este pode ser um dos aspetos mais confusos daquilo que viveu. Pode recordar momentos de proximidade, atenção, carinho ou mesmo sensações físicas agradáveis e perguntar-se: se houve momentos em que gostei e tive prazer, então terá sido mesmo abuso?
A resposta é sim. Uma experiência de violência sexual pode incluir momentos que a vítima sentiu como agradáveis e prazerosos sem deixar de ser violência sexual e crime.
Infância: quando o abuso começa por parecer uma brincadeira
Na infância, esta confusão pode ser particularmente profunda. Uma criança não tem a mesma perceção e noção que um adulto sobre o que é a sexualidade, relações, limites e poder. Quem abusa pode explorar precisamente essa diferença. O abuso pode ser apresentado como uma brincadeira, um jogo, um segredo ou uma forma especial de proximidade. Pode começar com cócegas, lutas, contacto físico aparentemente inofensivo ou outras atividades que, isoladamente, não levantariam suspeitas. Gradualmente, os limites vão sendo diluídos e ultrapassados.
O adulto pode também oferecer presentes, atenção especial, passeios, elogios ou afeto. Pode fazer a criança sentir-se escolhida, importante ou especial. Pode tornar-se aquela pessoa que brinca com ela, que a ouve, que lhe dá atenção ou que parece compreender aquilo que mais ninguém compreende. Estas estratégias fazem parte de uma estratégia e processo de manipulação (grooming em inglês) que procuram criar confiança, dependência e segredo.
E aqui existe uma realidade particularmente dolorosa: por vezes, a pessoa que abusa é também a única ou das poucas pessoas que dá afeto à criança.
Uma criança pode gostar genuinamente da atenção que recebe. Pode sentir carinho por quem a abusa. Pode esperar ansiosamente pelos momentos em que estão juntos. Pode não querer perder aquela relação, mesmo que existam comportamentos e momentos que lhe causam medo, desconforto ou confusão.
Estas emoções aparentemente contraditórias não anulam o abuso. Pelo contrário, ajudam-nos a compreender porque é que muitas vítimas demoram anos ou décadas a reconhecer aquilo que lhes aconteceu. Crianças que são alvo deste processo podem desenvolver sentimentos de lealdade, admiração, amor, medo e confusão simultaneamente.
O facto de uma criança gostar da atenção, dos presentes, das brincadeiras ou do carinho não significa que tenha desejado ser sexualmente abusada. Essa questão nem sequer é relevante. A criança é vítima de um crime de abuso sexual.
Vida adulta: quando o corpo reage sem que a pessoa queira
Esta questão não desaparece na idade adulta. Um homem pode ter uma ereção durante uma situação de violência sexual, pode ejacular, pode sentir excitação física e até atingir o orgasmo. Estas respostas podem resultar da estimulação física e de mecanismos fisiológicos que não são voluntários. Qualquer resposta de excitação fisiológica pode ocorrer durante o abuso e não constitui uma indicação de consentimento.
Isto é particularmente importante para os homens sobreviventes. Um homem pode olhar para o próprio corpo depois do que aconteceu e pensar: se eu tive uma ereção, então, é porque eu quis aquilo.
Na verdade, não.
Uma ereção não significa consentimento. Ejacular e atingir o orgasmo também não.
A resposta fisiológica não nos diz, por si só, aquilo que a pessoa desejava, autorizava ou sentia emocionalmente. É precisamente esta confusão que pode ser explorada por quem abusa. Dizer a uma vítima “eu vi como tu querias”, “ninguém tem uma ereção quando é abusado”, “se tiveste um orgasmo, é porque gostaste” transforma uma reação involuntária do corpo num suposto sinal de consentimento. Por isso, voltamos a repetir: não, não transforma. Prazer não é consentimento.
Naturalmente, devido aos muitos mitos e crenças erradas que ainda subsistem e ao questionamento da própria vítima, isto pode ser difícil de aceitar, sobretudo quando aprendemos a pensar no prazer sexual como prova de desejo. Mas são coisas diferentes.
Prazer e consentimento não são sinónimos.
Uma pessoa pode sentir prazer e não querer continuar. Pode ter uma resposta física e querer que o contacto termine. Pode gostar de uma parte da experiência e não consentir outra. Pode sentir prazer numa sensação concreta e, ao mesmo tempo, sentir-se violada pela situação em que essa sensação ocorreu.
O mesmo acontece na infância de uma forma ainda mais complexa: uma criança pode gostar da atenção, do carinho ou mesmo de determinadas sensações físicas sem ter capacidade para compreender a dimensão da violência que está a acontecer.
Nada disso transfere ou pode transferir para a criança a responsabilidade pelo abuso. A responsabilidade é sempre de quem decidiu ultrapassar os limites e abusar da sua posição de poder, conhecimento ou confiança.
Abuso sexual: a confusão faz parte da história.
Muitos sobreviventes passam anos a tentar organizar estas contradições. «Eu gostava daquela pessoa.», «Ela era carinhosa comigo.», «Eu queria estar com ela.», «Havia coisas de que eu gostava.», «O meu corpo respondeu.», «Eu procurei».
«Porque é que me sinto tão mal?»
Estas perguntas não tornam o abuso sexual menos real. São, muitas vezes, parte do processo através do qual um sobrevivente tenta compreender uma experiência que foi construída precisamente para ser difícil de compreender.
Na violência sexual nem sempre existe medo permanente. Nem sempre existe força física. Nem sempre existe resistência. Nem sempre existe uma experiência que possa ser facilmente dividida entre «bom» e «mau». Pode existir afeto. Pode existir confiança. Pode existir prazer. Pode existir curiosidade. Pode existir dependência. Pode existir medo.
Reconhecer esta complexidade não desculpabiliza quem abusou. Pelo contrário: permite ajudar o sobrevivente a compreender e a livrar-se dos sentimentos de culpa que nunca lhe pertenceram.
O corpo pode ter respondido. A criança pode ter gostado da atenção. O homem pode ter sentido prazer. Mas, nada disso faz da violência sexual uma experiência consentida. E nada disso faz da vítima e do sobrevivente responsável pelo que lhe aconteceu.